"Mas isso seria uma solução simples demais para um Compson. Se não for complicado, não tem graça"
(pg. 290)
Faulkner me desestruturou. Simples assim.
Eu sabia que precisava lê-lo. Há anos eu
colocava "O som e a fúria" nas minhas listas de leitura,
afinal, é um clássico (e eu gosto de ler clássicos pra saber por que são
clássicos!), mas nada me preparou para este livro. Foi uma experiência insana.
Mais que uma história, o mestre de Gabo
nos chama a viver uma experiência narrativa peculiar (pelo menos foi pra
mim!). O Som e a Fúria exauriu minhas forças, me desgastou
como leitora, me arrancou da minha zona de conforto e no fim só pensei: UAU
como esse cara fez isso?!! Que mente e processo criativo louco!"
A minha trajetória de leitora foi poucas
vezes desafiada de fato por uma proposta narrativa nova. Gabo fez isso comigo
aos 16 anos quando peguei pra ler O amor e outros demônios. Eu
estava acostumada aos mesmos personagens insossos de Dani Steel e cia, e aí
Gabo gerou incômodo e inquietação; me provocou e eu o encontrei, e me
apaixonei. Paixão que dura até hoje.
O mesmo aconteceu com Dostoievski e
seus Irmãos Karamázov aos 20 anos: uma leitura tão exigente,
uma experiência maravilhosa.
Aos 21 vivi a mesma situação com Kafka e
aquele angustiante Processo: novo desafio, necessidade de oxigênio,
nova paixão. Ano passado quase me perdi naquela complexa brincadeira do
Cortazár (mais conhecida como O jogo da amarelinha) e como me cansei e
inquietou e fui fisgada e eternamente presa ao brilhantismo de um ser humano
para pensar um livro desses.
Experiências narrativas singulares.
Momentos que em ler deixa de ser um passa tempo e vira "passione" e
provoca uma série de sensações que num virar de páginas te leva da frustração
ao êxtase.
Aí comecei 2015 com Faulkner implodindo o
meu resto de juízo.
Superficialmente falando O som e a
fúria retrata a decadência da aristocrática família Compson no
decadente sul dos EUA, num período de tempo que vai do início do século XX até
década de 1930. A história tem foco nas complicadíssimas relações dos quatro
irmãos Compson: Benjamin, Jason, Quentin e Candace e suas consequências.
O livro tem quatro vozes narrativas:
Benjy, Quentin, Jason e Dilsey, e é aí que Faulkner me quebra, pois ele exige
que o leitor acompanhe não apenas uma história de quatro pontos de vista
diferentes, mas sim o trabalhar de quatro cabeças em funcionamento. Somos
imersos nos pensamentos, sensações e percepções deles. Tirando Dilsey, que nos
conta a história mais linearmente, somos forçados muitas vezes a acompanhar os
fluxos de pensamentos mais desconexos do mundo. Temos acesso à loucura, aos
ressentimentos, às paixões, ódios, lapsos de tempo, interposições de vozes e
muitas outras interrupções que são próprias do pensamento e complicam por vezes
o fluxo narrativo (especialmente quando estamos acostumados a uma narrativa
impessoal e linear dos fatos).
Eu quase enlouqueci lendo uma das vozes
narrativas. Foi cansativo pro meu cérebro pelo excesso de interrupções. O livro
exigiu muita atenção minha e em troca me presenteou com uma história poderosa e
crua sobre as várias possibilidades de decadência humana.
A família Compson é um retrato claro de
todos os tipos de loucura que estamos expostos: seja o transtorno mental, a
deficiência; ou as loucuras mais perigosas, a paixão, o ódio, o orgulho, o
ressentimento, a culpa, o egoísmo. O som e a fúria, é som e fúria,
é uma experiência de leitura fantástica!
Gabo disse que Faulkner é um gênio. Se
Gabo disse, então é.

