Som e Fúria
julho 29, 2017"Mas isso seria uma solução simples demais para um Compson. Se não for complicado, não tem graça"
(pg. 290)
Faulkner me desestruturou. Simples assim.
Eu sabia que precisava lê-lo. Há anos eu
colocava "O som e a fúria" nas minhas listas de leitura,
afinal, é um clássico (e eu gosto de ler clássicos pra saber por que são
clássicos!), mas nada me preparou para este livro. Foi uma experiência insana.
Mais que uma história, o mestre de Gabo
nos chama a viver uma experiência narrativa peculiar (pelo menos foi pra
mim!). O Som e a Fúria exauriu minhas forças, me desgastou
como leitora, me arrancou da minha zona de conforto e no fim só pensei: UAU
como esse cara fez isso?!! Que mente e processo criativo louco!"
A minha trajetória de leitora foi poucas
vezes desafiada de fato por uma proposta narrativa nova. Gabo fez isso comigo
aos 16 anos quando peguei pra ler O amor e outros demônios. Eu
estava acostumada aos mesmos personagens insossos de Dani Steel e cia, e aí
Gabo gerou incômodo e inquietação; me provocou e eu o encontrei, e me
apaixonei. Paixão que dura até hoje.
O mesmo aconteceu com Dostoievski e
seus Irmãos Karamázov aos 20 anos: uma leitura tão exigente,
uma experiência maravilhosa.
Aos 21 vivi a mesma situação com Kafka e
aquele angustiante Processo: novo desafio, necessidade de oxigênio,
nova paixão. Ano passado quase me perdi naquela complexa brincadeira do
Cortazár (mais conhecida como O jogo da amarelinha) e como me cansei e
inquietou e fui fisgada e eternamente presa ao brilhantismo de um ser humano
para pensar um livro desses.
Experiências narrativas singulares.
Momentos que em ler deixa de ser um passa tempo e vira "passione" e
provoca uma série de sensações que num virar de páginas te leva da frustração
ao êxtase.
Aí comecei 2015 com Faulkner implodindo o
meu resto de juízo.
Superficialmente falando O som e a
fúria retrata a decadência da aristocrática família Compson no
decadente sul dos EUA, num período de tempo que vai do início do século XX até
década de 1930. A história tem foco nas complicadíssimas relações dos quatro
irmãos Compson: Benjamin, Jason, Quentin e Candace e suas consequências.
O livro tem quatro vozes narrativas:
Benjy, Quentin, Jason e Dilsey, e é aí que Faulkner me quebra, pois ele exige
que o leitor acompanhe não apenas uma história de quatro pontos de vista
diferentes, mas sim o trabalhar de quatro cabeças em funcionamento. Somos
imersos nos pensamentos, sensações e percepções deles. Tirando Dilsey, que nos
conta a história mais linearmente, somos forçados muitas vezes a acompanhar os
fluxos de pensamentos mais desconexos do mundo. Temos acesso à loucura, aos
ressentimentos, às paixões, ódios, lapsos de tempo, interposições de vozes e
muitas outras interrupções que são próprias do pensamento e complicam por vezes
o fluxo narrativo (especialmente quando estamos acostumados a uma narrativa
impessoal e linear dos fatos).
Eu quase enlouqueci lendo uma das vozes
narrativas. Foi cansativo pro meu cérebro pelo excesso de interrupções. O livro
exigiu muita atenção minha e em troca me presenteou com uma história poderosa e
crua sobre as várias possibilidades de decadência humana.
A família Compson é um retrato claro de
todos os tipos de loucura que estamos expostos: seja o transtorno mental, a
deficiência; ou as loucuras mais perigosas, a paixão, o ódio, o orgulho, o
ressentimento, a culpa, o egoísmo. O som e a fúria, é som e fúria,
é uma experiência de leitura fantástica!
Gabo disse que Faulkner é um gênio. Se
Gabo disse, então é.


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